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Impactos no Setor

14 de abril de 2020

Um estudo do Centro de Macroeconomia Aplicada da Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP) projetou o impacto da pandemia do coronavírus na atividade econômica brasileira. O coordenador do centro, professor Emerson Marçal, apresentou a metodologia e as conclusões da pesquisa, que estima que o PIB brasileiro poderá recuar em 2020 até 4,5%.

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Diante de um cenário em que é muito difícil mensurar os efeitos econômicos, ainda mais em um momento em que não há muitas informações sobre o que está acontecendo na economia brasileira, o trabalho utilizou econometria e história econômica para identificar momentos importantes que podem ser comparados à crise atual.

“O ano de 2020 será difícil, será desafiador.”

A pesquisa mediu a magnitude da crise de 2008 – um evento global que afetou o mundo como um todo e o Brasil em especial – e também da greve dos caminhoneiros, de 2018, quando a economia brasileira ficou parada por praticamente um mês sem poder operar. Após analisar os dois eventos, traçou um cenário base, simulando o que aconteceria com a economia brasileira caso não fosse impactada pela pandemia de coronavírus. Segundo essa estimativa, o PIB brasileiro avançaria 2% em uma situação de normalidade. Foi a partir dessa projeção que foram traçados os cenários de impacto da crise da COVID-19.

Também foi avaliado um terceiro cenário, com a junção desses dois episódios. De acordo com Marçal, essa seria a projeção mais realista, visto que a crise atual agrega o impacto na economia mundial com a paralisação da economia brasileira.

Ainda de acordo com o professor, somente o tempo vai dizer qual será o real impacto do COVID-19 na economia brasileira. Marçal destacou que dois fatores serão fundamentais para determinar se as projeções realizadas são realistas, otimistas ou pessimistas.

“Vai depender de dois fatores. O grau da pandemia, ou seja, se nós perdermos o controle da pandemia domesticamente, a economia brasileira muito provavelmente se desorganizará e além das perdas de vidas, nós teríamos uma recessão muito provavelmente maior do que está sendo projetado em nosso cenário. Se a pandemia for controlada e nós conseguirmos dentro de alguns meses retomar uma certa normalidade, o ano de 2020 será difícil, será desafiador, mas em 2021, 2022, 2023 haverá uma trajetória de retomada”, conclui.

Indústria é primeiro setor afetado pelo Coronavírus

O coronavírus foi se espalhando pelo mundo e desde janeiro acompanhamos mais de perto a sua evolução. No Brasil, a indústria começou a sentir os efeitos da pandemia em março. Pesquisa realizada no âmbito das sondagens empresariais e do consumidor, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), mostra que em março de 2020, quase metade das empresas da indústria (43%) já percebia os efeitos nos negócios, seguidas por comércio (35,4%) e serviços (30,2%).

“Antes do fechamento das escolas e do comércio, a pesquisa apontava que mesmo antes das restrições mais de 30% das empresas de todos os setores sentiam os efeitos da pandemia.”

Na indústria, os segmentos que se mostraram mais afetados pela pandemia no mês foram: Petróleo e biocombustíveis (88,3%) e Química (61,4%). O levantamento aponta que chegaria a afetar 90,5% e 80,2% das empresas desses segmentos nos próximos meses, respectivamente. Para quase todas as empresas de Petróleo (90,7%), a principal causa para esse impacto seria a demanda externa reduzida, e para 83,1% dos produtores químicos seria o fornecimento de insumos importados.

Para os próximos meses, 15 dos 19 segmentos têm mais de 50% das empresas dizendo que sofrerá impactos devido ao coronavírus. Entre os que esperam ser mais afetados estão: máquinas e materiais elétricos (91,5%), limpeza e perfumaria (90,2%), informática e eletrônicos (89,4%), couros e calçados (85,9%), veículos automotores (82,7%) e metalurgia (82%).

Feita entre 1º e 25 de março, majoritariamente antes do fechamento das escolas e do comércio, a pesquisa apontava que mesmo antes das restrições mais de 30% das empresas de todos os setores sentiam os efeitos da pandemia. Já para a quase totalidade (81,4%) dos 1700 consumidores consultados entre os dias 1º e 19 de março, iria prejudicar de maneira forte ou moderada a economia.

Estudo avalia impactos da adoção da Renda Básica Emergencial na economia brasileira

De acordo com a pesquisa, a proposta aprovada no Congresso, de R$ 600, seria capaz de gerar 7,1 milhões de postos de trabalho e uma injeção de R$ 32,6 bilhões mensais em termos de PIB, o equivalente a 1,3%.

Os pesquisadores do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo (CND) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), Marco Brancher, Guilherme Magacho e Rafael Leão, realizaram um estudo sobre os impactos econômicos do coronavírus e dos programas de renda básica emergencial (RBE).

A pesquisa buscou analisar os impactos sobre a renda e emprego da população brasileira e sobre o Produto Interno Bruto (PIB). Além disso, analisou-se a proposição de um programa de Renda Básica Emergencial (RBE) de um salário mínimo (R$ 1.045,00) que contemplasse a população mais impactada pela crise, bem como os efeitos decorrentes deste programa sobre a renda, emprego e PIB. Os resultados obtidos foram comparados com a proposição de RBE de R$ 600,00, aprovada pelo Congresso Nacional.

Os pesquisadores verificaram que um programa de RBE de um salário mínimo seria capaz de manter R$ 76,5 bilhões do PIB por mês, além de gerar 16,7 milhões de postos de trabalho. Este impacto se traduziria na prevenção da perda equivalente a 3,1% do PIB no ano de 2020 caso este programa se mantenha apenas num período de três meses. Já a proposta aprovada no Congresso, segundo esse estudo, seria capaz de gerar 7,1 milhões de postos de trabalho e uma injeção de R$ 32,6 bilhões mensais em termos de PIB, o equivalente a 1,3%.

Fecomércio RS aponta as perdas econômicas já identificadas no estado

Os dados das Notas Fiscais de Consumidor Eletrônicas (NFC-e), divulgados pela SEFAZ-RS, permitem a avaliação da atividade econômica do comércio varejista. Os dados, divulgados diariamente, mostraram queda de 33,9% nos valores autorizados na primeira semana de validade do decreto estadual que estabeleceu medidas de distanciamento social no RS no comparativo com a semana imediatamente anterior. Na semana de 13 de março à 19 de março (antes da validade do decreto) foram autorizados R$ 2,63 bi pelo sistema de NFC-e. Na primeira semana das medidas de distanciamento social (20 de março à 26 de março), esse valor caiu para R$ 1,74 bi. Os dados divulgados pela Fazenda Estadual não permitem a avaliação por segmento, mas como na primeira semana multiplicaram-se os decretos municipais fechando ou restringindo severamente a atividade de estabelecimentos do comércio que não atuassem na venda de gêneros alimentícios e medicamentos, é muito provável que a atividade em alguns segmentos tenha colapsado.

“O comércio vendeu 43% menos entre 21 e 27 de março, a indústria teve recuo de 35%, e o atacado, de 17%, comparado com o período equivalente do ano passado.”

No Rio Grande do Sul, o comércio varejista é a atividade privada que mais emprega. No comércio varejista há cerca de 445 mil vínculos formais segundo dados da RAIS 2018. Apenas vinculado aos Simples Nacional, são aproximadamente 175 mil. Cerca de 123 mil empregos de empresas do Simples e mais de 130 mil em empresas do Regime Geral estão ligados a atividades que não estão associadas ao comércio de gêneros alimentícios, medicamentos e médico-ortopédicos.

“As empresas em geral, especialmente as menores, são extremamente frágeis do ponto de vista econômico-financeiro. É fundamental, neste momento, que as condições de acesso ao crédito sejam facilitadas. É inadmissível que exigências de garantias sejam aumentadas. Do lado do governo, precisamos de sinalizações claras para que decisões acertadas sejam tomadas, além da implementação urgente de medidas efetivas de socorro às empresas para preservar a saúde financeira das mesmas e, assim, os empregos. Não há trade-off entre saúde e economia, mas é preciso preservar a saúde da economia também. Precisamos nos lembrar que haverá um amanhã. E é preciso garanti-lo hoje!”, conclui Luiz Carlos Bohn, presidente da Fecomércio-RS.

O diretor da Fiergs e coordenador do Conselho de Relações do Trabalho (Contrab) da entidade, Thômaz Nunnenkamp, informa que na última semana de março, em relação à semana anterior, as vendas de setores industriais no Estado como o de veículos, coureiro calçadista e móveis caíram, respectivamente, 73%, 85% e 86%. Já segmentos como o de eletroeletrônicos, bebidas, máquinas e equipamentos sofreram quedas na ordem de 50%.

A Receita Estadual, braço da Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz), informou, com base em fluxo de notas fiscais, que o comércio vendeu 43% menos entre 21 e 27 de março, a indústria teve recuo de 35%, e o atacado, de 17%, comparado com o período equivalente do ano passado.

“É preciso pensar que se busca manter os empregos em companhias em que as vendas caíram mais de 80%, é necessário fazer alguns ajustes, não adianta somente dar férias, muitas vezes não há meios financeiros para fazer frente à folha”, frisa. Nunnenkamp reforça que a iniciativa não resolve todos os problemas, contudo se trata de uma ajuda importante.

A MP 936 prevê a redução de jornada de trabalho entre 25% e 70% pelo prazo máximo de 90 dias. Já a suspensão do contrato de trabalho é de até 60 dias. A Secretaria de Trabalho do Ministério da Economia calcula que 24,5 milhões de trabalhadores com carteira assinada podem ser abrangidos com a medida, com potencial de preservação de 8,5 milhões de empregos, com um custo total aos cofres da União de R$ 51,2 bilhões, já que o governo vai compensar parte da perda na remuneração do colaborador através da concessão do Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda.

O advogado sócio do escritório A & B Advocacia Empresarial e membro da divisão jurídica da Federasul Adalberto Bueno considera a MP 936 como crucial para o País não entrar em colapso. Ele ressalta que, se não há um mercado para a comercialização de um determinado produto, a empresa não tem condições de manter seus funcionários. O advogado ressalta que a possibilidade da redução da jornada de trabalho está prevista na Constituição e a suspensão de contrato na CLT. Bueno não descarta a hipótese de que, se a questão econômica no País se agravar, o governo estenda o prazo dessa medida.

Fontes: Portal FGV, Fecomercio-RS, Jornal do Comercio, Portal do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Sebrae RS, Portal da Associação dos Auditores-Fiscais da Receita Estadual – RS.